Em meio à toda loucura da pandemia, encontrar uma opção para aproveitar o feriadão sem ter de enfrentar a aglomeração em locais mais procurados como praias e cachoeiras é um desafio. Por isso, destinos incomuns e programações diferentes surgem. Foi a nossa opção no feriadão de finados. Embarcamos com a Sol de Indiada na Travessia da Lagoa dos Patos, um roteiro de 3 dias e duas noites, 50km de caminhada e acampamento selvagem… mas seria uma grande injustiça se a experiência fosse resumida assim. Por isso, vai ter textão sim =)

Observação importante: travessia é o nome dado ao roteiro, mas não atravessamos a Lagoa, caminhamos nas suas margens. =) 

Saímos de Caxias do Sul por volta do meio dia de sexta feira, rumo a Novo Hamburgo onde seguimos viagem acompanhados de um casal de amigos que conheci em outras aventuras. Nossa parada para dormir foi em Mostardas, onde tivemos o privilégio de ser acolhidos por um outro casal de amigos, que nos recebeu em sua fazenda e nos proporcionou uma noite pré travessia Lagoa dos Patos extremamente acolhedora. Fogo de chão, onde foi assada uma carne de ovelha (não pra mim =)), batatinhas temperadas com ervas recém colhidas no horta e cozidas em panela de ferro, e legumes grelhados, para sobremesa um brownie e sorvete de leite condensado deliciosos, feitos pela anfitriã. Como se não bastasse todo esse carinho, a mãe natureza nos presenteou com uma lua quase cheia brilhante em um céu praticamente sem nuvens.

Depois do banquete, hora de descansar e recarregar as baterias. Antes mesmo do sol nascer pulamos da cama, pois ainda tínhamos um pouco de estrada pela frente até o ponto de partida do roteiro oficial. Pouco antes da partida a luz do dia já começava a surgir, acordando incontáveis pássaros, que cantavam uma bela sinfonia do amanhecer. 

Cerca de uma hora e meia de estrada, chegamos em Tavares, ponto de encontro de todos os cerca 50 participantes da travessia. Momento de tomar um suco ou um café acompanhado de um lanche, essencial para dar energia pra começar a caminhada. Destaque especial para a Padaria do Primo, que pediu que encomendássemos com antecedência o que gostaríamos de comer, para que pudessem atender a todos, e atenderam muito bem. Aproveitamos para encomendar um lanche a mais, para ter um alimento mais fresco para almoçar no primeiro dia de caminhada. 

Hora de começar, as mochilas cargueiras foram acomodadas nos carros 4×4 que fizeram o apoio durante os 3 dias. Partimos de ônibus apenas com as mochilas de ataque até um ponto próximo ao Farol Capão da Marca de Dentro até onde caminhamos para abertura oficial da caminhada. Este farol foi importado da França e inaugurado em 1849, o mais antigo do sul do Brasil, uma torre tubular metálica com 19 metros de altura e alcance de 13 milhas náuticas (14km), hoje não é mais possível subir até seu topo pois a entrada foi soldada, certamente por ser um local que oferece risco e também porque parte superior da estrutura estava sendo depredada.

Nossa caminhada no primeiro dia foi a mais longa, iniciamos por volta das 8:30 o percurso de cerca de 24km, todo o percurso foi pela margem da lagoa, terreno arenoso, com inúmeros córregos a serem atravessados, alguns mais rasos e outros um pouco mais profundos, mas nada que ultrapassasse 80cm. Por volta do meio dia foi feita a parada para almoço, hora de se alimentar e também descansar um pouco, pois ainda teríamos umas horinhas de caminhada pela frente. Logo depois do local onde paramos para o almoço passamos por uma bóia encalhada, uma estrutura metálica enorme, que já faz parte da paisagem há alguns anos.

Meu destaque especial especial para o primeiro dia foi a beleza dos juncos, uma planta importantíssima nos ecossistemas aquáticos. O junco fica enraizado no sedimento no fundo do lago e suas folhas ficam para fora da água, fazendo uma espécie de moldura na beira da lagoa. São refúgios para pássaros, peixes e insetos, e também servem como alimento. A presença do junco indica um ambiente natural saudável.

Por volta das 15:30 chegamos ao local onde passamos a primeira noite, lá já haviam chegado os carros de apoio com as cargueiras (onde estava todo nosso equipamento de camping e restante das roupas e utensílios de higiene), e estrutura de cozinha. O acampamento era selvagem, ou seja, nada de banheiro, eletricidade ou qualquer outra “comodidade”. Por isso, aproveitamos a tarde quente e tomamos nosso banho do dia, na lagoa, o que é um luxo, pois algumas travessias com acampamento selvagem não dispõem de água doce para banho, nem mesmo gelado. 

As barracas ficaram em uma área debaixo de uma floresta de pinus, com uma vista privilegiada para a Lagoa, onde o foi possível presenciar um pôr do sol belíssimo. Mais tarde a equipe de apoio serviu o jantar, com direito a strogonoff, arroz, feijão e batata palha, ideal para repor toda energia gasta durante o dia. Era noite de Halloween e lua cheia, enquanto alguns se reuniram ao redor da fogueira outros já se recolheram em suas barracas para descansar. A lua apareceu por entre as árvores, mas não era uma noite de céu limpo, o que impossibilitou vê-la cheia.

Depois de uma longa e restauradora noite de sono, hora de acordar, desmontar acampamento e tomar café da manhã (com direito a uma bela mesa montada pela equipe de apoio) para nosso segundo dia de caminhada na Travessia Lagoa dos Patos. O percurso do dia foi bem mais leve, pouco mais de 11km. Em alguns trechos era possível caminhar pelo meio das plantações de pinus, fugindo um pouco do sol quente e do calor da areia. Em alguns trechos passamos por locais onde o nível da Lagoa aumentou e tomou conta de áreas de antigas plantações de pinus, criando uma paisagem, no mínimo, interessante, e digna de uma parada para fotografar.

Logo depois do meio dia chegamos no nosso local de acampamento, o Farol Cristóvão Pereira, construído em alvenaria, datado de 1886 e medindo 30 metros de altura, é o maior e mais importante farol da Travessia Lagoa dos Patos, e ainda hoje serve para guiar navegadores através de seu sinal que funciona automaticamente, sem a necessidade de operação de um faroleiro. O acesso ao interior do farol também foi fechado.

Aos poucos os participantes da travessia foram chegando e montando suas barracas dentro do “forte”, povoando ao redor da construção. 

Como a caminhada terminou cedo, o almoçamos já na barraca e tiramos uma soneca. Depois ainda deu tempo para tomar banho de sol e aproveitar as piscinas naturais formadas na beira da lagoa, sem esquecer de levar o sabonete pra aproveitar e tomar o banho do dia. =)

Pra fechar bem mais um dia de desconexão da civilização e de contato com a natureza, fomos presenteados por outro lindo pôr do sol, que coloriu o céu e rendeu instantes de silêncio absoluto, em que todos pararam para apreciar o espetáculo.

E mais uma vez, para a alegria dos trilheiros, cansados dos tais de “lanches de trilha”, a equipe da cozinha se superou, o cardápio do jantar foi, nada mais, nada menos do que risoto de gorgonzola com pêra. 

Se já não bastasse o espetáculo do pôr do sol, uma hora depois, imensa e alaranjada, a lua (quase) cheia nascia no horizonte iluminando as águas da Lagoa, coroando a última noite de acampamento. O céu limpo e a escuridão quase total multiplicavam as estrelas e possibilitaram que víssemos com clareza a ISS (Estação Espacial Internacional).

O despertar do terceiro dia foi cedinho, pra poder apreciar o nascer do sol. Logo todo acampamento já estava desmontado e o café servido. Ainda deu tempo de ficar mais um pouco por ali, sentado nas pedras, apreciando a paisagem e os momentos de quietude, agradecendo a oportunidade de viver momentos tão singulares.

O percurso do terceiro dia foi um pouco diferente, variado. Iniciamos por um percurso de cerca de 6km ainda na encosta da Lagoa, apreciando os pássaros que por ali sobrevoavam. Alguns trechos nem mais se caminhava na areia, mas somente sobre junco seco e um pouco de lama. Até que chegou o momento de despedida da Lagoa, que esteve ao nosso lado nos três dias de caminhada. 

Entramos então em uma propriedade particular, para podermos acessar a estrada. Essa propriedade é de cultivo de pinus. Mas diferente do que se pensa,do comum, esses pinus não eram cultivados para extração de madeira, mas sim para extração da resina. Cada árvore tem sua “casca” cortada até que se atinja a profundidade em que fica liberando a resina que é coletada em um pequeno saco que é afixado no tronco. De tempos em tempos o conteúdo destes sacos é coletado. Todo o trabalho para extração desta resina é feito de forma manual e individual, corte por corte, árvore por árvore, saco por saco.

A resina coletada destes pinheiros é utilizada para os mais diversos fins na indústria, desde a fabricação de pneus e solas de sapato, até remédios e chiclete. O Brasil é o segundo produtor mundial e o maior exportador desta matéria prima.

A caminhada pela propriedade particular foi bem curta em distância, mas muito rica em informação, ser curioso, questionador, nos permite conhecer mais do nosso próprio universo, e possibilita entender um pouco mais de alguns produtos que já chegam prontos em nossas mãos. 

Chegamos então na estrada, último trecho da nossa travessia Lagoa dos Patos, foram mais cerca de 6km de estrada arenosa, sob um sol forte, poucas sombras. Mais uma oportunidade para observar os pássaros, que em grandes bandos faziam suas revoadas como se estivessem fazendo um show, uma exibição para aquelas pessoas que passavam a pé por ali. 

Aos poucos fomos nos aproximando de algumas casas, até que chegamos em um pequeno vilarejo e foi possível avistar uma pequena igreja, ponto de chegada da nossa travessia Lagoa dos Patos.

Finalizar um percurso, um roteiro desses é, no mínimo, gratificante. É um presente ter saúde e disposição e poder passar 3 dias em um lugar de fauna e flora tão rica, contemplando paisagens incríveis, dividindo experiências e jogando conversa fora com tantas pessoas diferentes, mas que se conectam por um motivo em especial, por uma paixão em comum. Poder se desconectar da vida da cidade e se conectar consigo. Apreciar o silêncio… 

2 Comentários

  • Viviane Baptista,

    Lindo relato Jana! Foi um privilégio estar com vocês nessa Travessia! Galera com astral maravilhoso! Organização impecável! Só alegrias!!

  • Amanda Santos,

    Que experiência incrível, sem palavras para estas paisagens tão únicas!

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