Inicio esse assunto,  contando um pouco da minha história, sobre sentir medo de altura.

Lembro-me na minha infância de ver meu pai subir uma escada para trocar uma lampada e tremer “feito vara verde”, perguntei ao meu pai, porque tremia quando subia uma escada, ele respondeu que tinha muito medo de altura.

Quando somos criança não conseguimos entender esse tal medo de altura, ver meu pai naquela situação fez com que eu fizesse uma associação rápida sobre o medo, “quando sentimos medo de algo, simboliza perigo, logo temos que evitar que isso aconteça”. Com o passar dos anos, fui crescendo e amadurecendo, entrei para o movimento escoteiro e lá me deparei com situações que me faziam sentir medo, as vezes não era só a altura, mas sim o medo de arriscar o novo, descobrir o desconhecido, e por ter vivenciado aquela situação quando criança, sempre desistia de algo que me fazia sentir medo.

O meu primeiro contato com esportes radicais foi quando eu tinha 13 anos de idade, o grupo escoteiro que eu participava foi convidado para fazer rapel na Cascata do Salto Ventoso. E assim os escoteiros foram inseridos nessa nova atividade. Eu, como outros, ficamos a observar a descida dos colegas. Depois de acompanhar varias descidas de rapel chegou a minha vez. Eu não tinha experiencia alguma para fazer a tal atividade, o medo aflorou em mim, e pela primeira vez na vida, comecei a tremer sem parar “feito vara verde”, tal qual meu pai naquela escada. Depois de estar totalmente preso na corda e pronto para a descida, ouvia as pessoas ali presentes dizendo que “era fácil”, os instrutores explicando como fazia a prática do rapel. Foi bem neste momento que simplesmente “congelei”, não conseguia fazer nada, nem ouvir e nem falar, só senti que eu e meu inconsciente não estávamos preparados para tal situação. Então, aconteceu o provável, desisti.

Passei os próximos 5 anos evitando e fugindo de situações parecidas como aquela, pois o pavor foi tão grande que não queria voltar a me sentir assim. O tempo foi passando e em muitas reflexões sobre o assunto percebi que o que eu sentia, não era medo e sim pânico de altura.

Contudo, certa vez ao assistir o filme Tudo Por Um Sonho, li na legenda uma citação que dizia assim: “Medo e pânico são emoções distintas. Medo é saudável, pânico é fatal.”  

Refletindo ainda mais, notei que só a reflexão não era suficiente para entender essas palavras, era hora de me botar a prova, e realmente saber se eu era capaz de combater uns dos meus maiores medos.

Aos meus 18 anos de idade fui convidado a fazer rapel em uma ponte de linha férrea na cidade de Veranópolis/RS – Brasil, com 36 metros de altura. Aceitei o desafio, porém, antes de fazer a descida, olhei atentamente a explicação do instrutor que explicava como fazia para descer, frear e também como funcionava cada equipamento. Lembro-me do instrutor ter olhado para mim e pedir: “Você está pronto?”. Eu não estava convencido daquilo, então falei-lhe que ainda estava pensando. Decidi descer até o ponto final do rapel e ver como é a função do “anjo” (no rapel a pessoa que fica no ponto final da descida é assim chamada, pois tem capacidade e técnica suficiente para assegurar que o esportista tenha a melhor descida). Conversando com o “anjo”, o mesmo explicou que ele possui o total comando da descida, e exemplificou o que acontece em caso da pessoa que estiver fazendo rapel desmaiar, soltando assim a corda. Pedi para ele mostrar na prática, como era de fato esse comando da descida e da corda. Para demonstrar solicitou à pessoa que estava fazendo a descida soltar as duas mãos da corda, nesse instante o anjo simplesmente deu um puxão na corda que segurava em suas mãos e a pessoa parou de descer na hora. Ou seja, deixou claro que é o anjo quem decide se a pessoa vai descer ou não no rapel, pois se ele deixar a corda esticada, a pessoa não tem como realizar a descida de rapel.

Bem, devo dizer que depois de toda essa explicação, ganhei uma dose de auto-confiança, subi novamente até o topo da ponte, coloquei os equipamento necessários e o instrutor me conectou aos equipamentos junto a corda e disse assim:

Agora é só você imaginar que está pulando uma cerca, logo respondi, como assim? Você tem que ir para o lado externo da ponte para começar a descida de rapel, nossa eu estava com o coração na boca, “tremia mais que vara verde”, fiz tudo que ele me disse e desci de rapel, depois de apreciar a vista e superar meu medo de altura, comemorei muito, abracei o anjo e disse obrigado.

Acredito que toda essa aventura radical me fez amadurecer, encarar meus maiores medos e desafios, e isso tudo contribuiu para minha evolução como pessoa.

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As pessoas possuem medo do esporte ou de vivenciar algo novo?

O que motiva um esportista radical a praticar atividades perigosas de aventura é a capacidade de superar o seu próprio medo, seja ele relacionado ao que for. A escolha de se tornar atleta se deve a um simples motivo: a transformação do medo em coragem é muito mais fácil em um esporte radical do que na vida corriqueira, onde a convivência com outras pessoas pode entrar em xeque-mate. O medo de um esportista na verdade não está ligado ao receio de que ocorra um acidente, mas sim pelo simples fato de que cada prática é como se jogar em algo novo constantemente.

Tendo isso em vista, ao praticar um esporte de aventura, todo atleta possui medo de alguma coisa, assim como na vida. A diferença é que algumas pessoas sabem disfarçar ou lidar muito bem com o seu próprio medo, ao passo que outras pessoas perdem o autocontrole. Seria então o medo um aliado ou um inimigo das pessoas? Digamos que o nosso pior inimigo pode ser a nossa própria mente e não os fatores externos. Então a resposta é prática: o medo pode se tornar o nosso maior aliado. O primeiro passo é reconhecer e encarar o medo como uma motivação.

Hoje em dia, pratico muitos esportes de aventura, e embora acumular centenas de descidas e participar de outros esportes também perigosos, sempre sinto aquele medo do perigo, aquela adrenalina constante. Entretanto a diferença do medo de hoje e o medo da minha infância é que hoje entendo e respeito meus maiores medos, sem descartar sua presença, ele faz com que eu me certifique que tudo está realmente certo!

Concluindo, podemos dizer que na prática de esportes radicais não é apenas adrenalina pura é medo também, e que todos os bons atletas têm medo, porém a motivação e a coragem superam os obstáculos e o próprio medo!

Medo

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu. Sarah Westphal

Texto e fotos: Luís H. Fritsch

2 Comments

  • adryano,

    Parabéns, Luís Fritsch pelo seu artigo e relato inspirador sobre o contexto do medo em esportes radicais. Eu estou tentando iniciar agora no mundo dos esportes radicais e de aventura a fim de conhecer mais a dinâmica do medo e sua mecânica dentro do campo dos esportes, assim como atualmente também estou estudando esse tema em meu curso, e tenho interesse de te contactar pra uma entrevista, caso você tenha disponibilidade. Nesse caso, segue meu e-mail para seu contato em virtude de um possível interesse: adryanoveras@yahoo.com.br

    • Luis H. Fritsch,

      Interessante Adriano, estou te encaminhando um e-mail para conversarmos!

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