“De nada valem as ideias sem homens que possam pô-las em prática.” Karl Marx

A ideia central do desenvolvimento aos olhos da ciência pode ser simplificada como a mudança ou transformação das nossas realidades física (mundo em que todos vivemos) e psíquica (mundo em que cada indivíduo vive) para amplificar a qualidade da nossa experiência nesse mundo.

O único problema é até qual nível de compreensão vai a interpretação das pessoas desse conceito.

Uma viagem feita recentemente a um rio de nossa região (serra gaúcha) acabou por me fazer retornar à rotina com mais transtornos em minha mente do que quando saí, era pra ser exatamente o contrário não é? E o motivo disso?

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O que se observa na foto acima são espumas de poluição, espumas causadas por produtos da atividade humana que “vazaram” para áreas fora da atividade humana.

Em primeiro lugar, precisamos entender do que se trata essa espuma, e como ela se forma.

Em todas nossas atividades domésticas, profissionais, de lazer, e ultimamente até mesmo ao ar livre, fazemos uso de substâncias químicas criadas pelo homem. Essas substâncias podem variar, de produtos de higiene pessoal até a produtos criados, intencionalmente, com a ideia de transformar permanentemente as características da natureza terrestre, tudo em prol do desenvolvimento humano.

Algumas dessas substâncias são criadas à base de compostos orgânicos, na intenção de que a própria natureza consiga fazer a sua decomposição, são as chamadas substâncias biodegradáveis. Porém, no mundo como o conhecemos existem processos que necessitam de agentes químicos poderosos, mais poderosos inclusive, que as forças de degradação microbiológica presentes na natureza, essas são as substâncias recalcitrantes, resistentes à ação de degradação natural.

Elas apresentam agressão direta e indireta ao meio ambiente e aos seres que aqui habitam (nós também? Talvez?). A agressão direta é mais sorrateira e discreta, ou seja, agressão venenosa, produtos extremamente tóxicos em baixas quantidades, modificadores dos ecossistemas e do modo como gira o ciclo da vida no ambiente natural. A agressão indireta já é mais grosseira, gritante, a que mais demora a se instaurar e geralmente a primeira a ser percebida. Ela se caracteriza pelo acúmulo ao longo do tempo de quantidades absurdas do que não deveria estar ali.

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A espuma que vimos acima se encaixa na classificação de indireta, formada por detergentes e químicos similares, ela modifica as características do ambiente dos biomas aquáticos, impede o depósito de materiais no fundo dos corpos aquáticos, ao mesmo tempo que vai eliminando a composição micro bacteriana deles. Lembrando que era a atividade desses micro organismos, que morreram no processo, que faziam a reciclagem da água, tornando esses sistemas incapazes de dissolver até mesmo as moléculas orgânicas que neles chegam.

Já não bastando isso, detergentes são ricos em fosfatos que alimentam certos tipos de vegetação aquática (como algas) que rapidamente conseguem se reproduzir e espalhar-se pelo bioma, essa disseminação das algas consome nutrientes das águas e prejudica sua oxigenação, o que contribui ainda mais para a toxicidade do meio para as outras espécies.

As espumas instantâneas formadas no despejo de detergentes na água tem vida curta, e logo se dissipam, mas por que isso não acontece na natureza?

Porque não são as mesmas espumas. Com a diminuição da atividade dos microrganismos decompositores e o aumento da morte do bioma por toxicidade química, se acumulam também subprodutos orgânicos na água, alguns deles são proteínas que acabam interagindo na resistência e viscosidade da água (já pararam para pensar como somos 80% água porém sólidos?) formando uma espuma resistente, com maior capacidade inclusive de retenção de químicos, sem falar que ela também impede a oxigenação da água já sem oxigênio abaixo dela, criando rios de veneno.

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O trecho que visitamos é relativamente afastado das áreas e centros urbanos da nossa região, ainda assim isso não impediu também a disseminação da poluição no seu estado mais visível, são quilômetros e quilômetros de detritos industriais e humanos, embalagens, vestimentas, entulhos, rejeitos, móveis, peças de meios de transporte, etc… Poluentes pesados e grandes, que mostram que não precisamos levar nossa sujeira até a natureza para que a natureza esteja com nossa sujeira, se isso acontece com um televisor de 20 polegadas, já parou pra pensar em que cantos do mundo uma gota com trilhões de moléculas de poluente chega?

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Foto: Internet
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Foto: Internet
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Foto: Internet

O mais alarmante, é a atitude das pessoas quanto ao conhecimento desses fatos. Sabemos e compreendemos a persistência das nossas transformações no meio em que vivemos, sabemos que elas não sairão de lá por conta própria, ainda assim esperamos, ainda que inconscientemente, o resolver da situação sem fazer nada, quantas pessoas cuidam das suas emissões de poluentes pessoais no dia a dia e em atividades ao ar livre? (Você cuida?) Quantas pessoas retiram da natureza o que ela não consegue retirar de si própria quando tem a oportunidade? (Você retira?) Quantas pessoas se importam com a resposta dessas perguntas? (Você se importa? Por quê?).

É comum ouvirmos falar por aí  que estamos atualmente no ápice do desenvolvimento humano, refletindo sobre o real significado de desenvolvimento, tirando aquela venda cômoda que colocamos para não nos sentirmos culpados, com o que anda acontecendo na prática, estamos mesmo amplificando a qualidade da nossa experiência nesse mundo?

Gosto de usar o sinônimo popular de “Nata” para o ápice que dizem, pois no final das contas, o que estamos literalmente produzindo é uma nata, nata com a vida dos seres que realmente transformam e produzem o que precisamos para existir.

As imagens a seguir são do estado de São Paulo no rio Tietê, exemplificam e evidenciam não só a seriedade do problema, como a nossa eficiência em ignorar a magnitude dele, fato é, tudo que aconteceu de mudança nesse mundo partiu de iniciativa individual de alguém. Sinceramente… me preocupa, quanto mais de nata precisaremos para começarmos a nos importar?

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Foto: Internet
Pirapora do Bom Jesus- SP- Brasil- 23/06/2015- Imagens feitas ontem (22/06), mostram a grande concentração de espuma no rio Tietê. A formação de espumas, que ocorre frequentemente no Rio Tietê ao longo das cidades de Santana de Parnaíba, Salto e Pirapora do Bom Jesus, está relacionada principalmente a baixa vazão da água, a presença de esgotos domésticos não tratados que dificultam a decomposição de detergentes domésticos. Os moradores da cidade ainda reclamam do mau cheiro que fica mais intenso, conforme a quantidade de espuma aumenta. Foto: Rafael Pacheco
Foto: Rafael Pacheco

“Sê senhor da tua vontade e escravo da tua consciência.” Aristóteles

 Texto: Lucas Sironi
Fonte de pesquisa: Química Ambiental

 

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