A noite foi longa e fria, pois dormimos cedo pensando na expectativa de como seria o próximo dia. Dormimos todos juntos no chão do barracão, pois não havia a menor possibilidade de montar as barracas em meio a tanta umidade e neve, assim, cada um escolheu um canto e ali acomodou seu isolante e seu saco de dormir. Acordamos cedo, neste dia nosso café da manhã foi chá com algumas bolachas recheadas compradas ali mesmo, um casal formado por uma Argentina e um Italiano dividiram alguns biscoitos com a gente. Eis que durante nosso café surge na porta a figura do Guarda Parque Daniel com a feliz notícia que o tempo havia melhorado bastante e que ele nos acompanharia até o ponto mais alto do Paso, lá outro Guarda Parques do Acampamento Paso iria nos encontrar e nos conduzir pela descida do outro lado da montanha. Nessa hora percebemos que valeu a pena apostar e esperar, apesar todos os prognósticos indicarem que o tempo ficaria como estava ontem por no mínimo quatro dias, porém, contamos com a nossa tradicional sorte com o tempo, foi à terceira sorte grande da viagem. (Veríamos os outros que retornaram três dias depois).

Estávamos em 9 pessoas no barracão, no entanto, um casal de Brasileiros já tinha decidido na noite anterior que não fariam a travessia do Paso, assim, restaram apenas os 7 da foto acima (da esquerda para á direita, Eu, amigo da Itália, Paulo, namorada do Italiano, nossa Amiga Augustina, o Chileno Carlos, outro Amigo do Chile e o Guarda Parques Daniel). Partimos em torno de 8 horas rumo ao esperado Paso John Gardner (o local recebeu este nome em homenagem ao seu descobridor). Iniciamos pela mesma trilha percorrida parcialmente ontem, quando chegamos aos mesmos 2,5 km de onde tivemos que retornar no dia anterior e vimos que o tempo estava aberto e seco, tivemos a certeza que a travessia do Paso logo seria mais uma etapa realizada do percurso Paine.

Um dos trechos mais duros e difíceis da travessia, o terreno formado por muitas pedras, neve e uma subida muito íngreme e quase interminável estavam sempre a nossa frente, sem falar nas rajadas de vento gelado e constante que nos tiravam o equilíbrio. A paisagem de qualquer lado era exuberante, montanhas e muito gelo, passamos ao lado 21 do Glaciar Amstad e o visual que ficava pra trás era um verdadeiro espetáculo. Num dos pontos da subida gravei até um pequeno vídeo mostrando o vento e a sensação de estar lá e imaginei estar ali novamente com a turma das Indiadas. Em alguns pontos havia uma camada de gelo nas pedras que deixava a trilha muito perigosa e escorregadia, em outros havia neve acumulada que chegava quase até os joelhos, no entanto, seguimos firmes até os 1.200 metros de altitude e os poucos mais de 50 metros de largura da passagem para o outro lado da montanha.

 Subida para o Paso.
Subida para o Paso.

Chegamos ao Topo! O vento era o mais forte já experimentado até então, rajadas fortes e constantes não nos deixavam nem respirar direito, porém, mais alguns passos à frente e o visual do Glaciar Grey nos fez esquecer por alguns momentos do vento gelado e do frio que passamos naquele lugar. As mãos congelavam, não conseguíamos manter os olhos abertos, o nariz mais parecia uma cachoeira e os lábios roxos e secos. Conquistado o Paso, nosso objetivo do dia era chegar ao Acampamento Grey, que ficava 7 km adiante do Acampamento Paso que por sua vez ainda estava a 5 km do local onde estávamos. Assim, iniciamos nossa descida, uma trilha difícil com muitos degraus e que estava ainda em pior estado devido à chuva e umidade do dia anterior. Chegamos ao Acampamento Paso eram 14h30mim, almoçamos rapidamente mais uma dose de Massa rápida e partimos para o Acampamento Grey. A trilha até o Grey foi sensacional, embora com tempo nublado e bastante vento, conseguimos ter belíssimos visuais do Lago e do Glaciar Grey. O percurso era um misto de trilhas na mata, trilhas pelos paredões de pedra e muitas fendas escavadas por deslizamentos e rios, sempre com escadas de ferro e pontes para realização da travessia. Todas às placas indicavam o acampamento Grey a 10 km, porém, pelo GPS a marcação foi de apenas 7 km. Melhor pra nós. Chegando ao Acampamento Grey, logo fomos procurando lugar para acampar e depois aproveitamos para tomar um banho quente e nos dar o luxo de jantar no conforto do Refúgio, pagamos 22 dólares por pessoa por um jantar com sopa (entrada), arroz e uma carne (prato principal) e sobremesa. Depois de um ótimo jantar e do dia cansativo e intenso fomos dormir debaixo da forte ventania que assolava o acampamento Grey.

Transcrição do diário da viagem por: Cristiano da Cruz e Paulo Adair Manjabosco

Data do Relato: 15 a 30/03/2014

Texto e Fotos: Cristiano Da Cruz

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Contato: www.indiadabuena.com.br

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